quarta-feira, 25 de junho de 2014

Tudo tanto

Tinha tanto medo de me perder por tanto 
(tanto)
querer te encontrar.

E agora está aqui
Estamos
E eu já não sei mais quem sou.

terça-feira, 10 de junho de 2014

A Foto de Turma


- Ei, ei. Psiu. Olha pra cá.
- Que foi?
(barulho do flash)
- João, você saiu olhando pro lado de novo!
- Desculpe, Dona Joana.
- Vamos tentar mais uma vez. Sorriam, crianças. 
- João! João, o que é isso? Olha pra cá!
- 1, 2, 3 e....
- O que é Pedro?
(barulho do flash)
- João, não é possível! De novo!
- Dona Joana, o Pedro me chamou...
- Para de brincadeiras, João. Essa vai ser a última vez. Quer acabar com o filme da câmera? Vamos lá, de novo. Sorriam.
- João, você não vai acreditar! Olha só isso!
- 1, 2, 3 e...
- Para com isso, Pedro!
(barulho do flash)
- Já chega, João! Você não vai sair na foto do anuário deste ano!
- Mas, professora...
- Saia, João! Agora. 


Lembra-se disso? Eu me lembro como se fosse ontem. E hoje consigo ver o pedaço que está faltando nessa foto. Um pedaço da nossa turminha de 1963. Sabe, é engraçado porque eu não consigo encontrar mais nenhuma foto dos anuários dessa época. Só encontro essa. Logo essa em que você não está. Por um segundo, quando eu olhei pra essa foto, eu pensei que não era mais capaz de reconhecer o seu rosto. Aquele rosto, daquele tempo. Daquele tempo em que colávamos chicletes embaixo da carteira, em que corríamos como loucos para o recreio, em que ir para casa era abandonar a nossa própria casa. Como foi boa aquela turma de 60! Os anos passaram, e cada um foi voando, traçando o seu próprio caminho para longe daquela cidadezinha, tão escondida no imenso mapa brasileiro, mas tão cheia de encantos. Nós fomos a primeira turma. E estreamos com chave de ouro, acredito. Aprontamos muito. Mas sabe, João, mesmo que eu tivesse encontrado as outras fotos, do ano anterior ou dos que se seguiram, não teria a mesma graça. Essa foto, apesar de incompleta, carrega em si historias inteiras, e não pela metade. Então, nesse dia, do seu aniversário, eu lhe mando de recordação do momento que os seus olhos congelaram. O momento em que você não está de corpo, mas de alma, atrás da câmera. Como se visse através dela. Hoje os mesmos olhos observam o mesmo quadro através de outra janela. E tantas janelas se passaram.
Eu tenho saudade daquele tempo, meu amigo. E é por isso que lhe mando essas recordações, para que não continue a envelhecer se esquecendo do que fomos um dia, um tempão atrás. Cada um de nós foi para um lado, mas tenho certeza que essas histórias ainda nos unem, porque ainda estão presentes em nossas lembranças mais doces. Mando essa foto, também, porque acredito que você não a tenha. Acho que essa, talvez, mereça um espaço na parede.

Ei, João. Olha pra cá.
Um abraço, do seu grande amigo,
Pedro.

sábado, 7 de junho de 2014

Vendaval

As folhas caiam lentamente lá fora. Eu as acompanhava com certa angústia, como se tivesse medo de não dar tempo. Existia uma pressa dentro de mim que eu não entendia.
A campainha tocou ao fundo, meu corpo estremeceu de susto. Corri até a porta. Estava ofegante.
Parei então, porque, na verdade, não esperava por ninguém. Encostei o meu rosto contra a parede e respirei. Conseguia ouvir a respiração do outro do lado. Eu sabia quem era. E ele sabia que eu estava ali. Fosse pela sombra dos meus pés ou pelo esforço que fazia em ouvir a minha respiração.
Ele tocou a porta. Parecia tocar o meu rosto. Senti o sangue subir pelo meu corpo inteiro até atingir as minhas bochechas. Estava quente. Afastei-me da porta, fingindo não estar ali.
Ele tocou a campainha mais uma vez.
“Me deixa entrar”, disse.
Eu abri a boca para lhe dizer que fosse embora, que eu queria ficar só. Mas alguma coisa me sufocava a voz. Tive a impressão que não era capaz de dizer nada.
Ele bateu na porta. E eu me sentei ao lado dela.
Ele bateu mais algumas vezes.
Depois, tudo se aquietou. O silêncio mais alto que eu já tinha ouvido.
O vento fez a janela bater. Olhei para fora novamente. Percebi que muitas folhas tinham caído desde que eu parara de olhar. Senti um buraco abrir-se dentro de mim. Eu não podia controlar. Eu não podia controlar nada.
Corri até a janela e o vi caminhando para longe. Passos bem lentos. Ele vestia um casaco marrom. Eu adorava aquele casaco.
Mais uma vez abri a boca para lhe gritar alguma coisa. Qualquer coisa. Que voltasse, que se deitasse comigo sobre aquela amendoeira. Mas não pude.
A janela bateu mais uma vez. Fechei-a, e fiquei parada em frente a ela. Olhando através do vidro tudo o que acontecia lá fora. Tudo o que acontecia sem o meu consentimento.
Não queria que ele tivesse ido embora. Ele tinha que ter esmurrado a porta, forçado a maçaneta, gritado o meu nome. Por que não fez isso?
Respirei fundo.
Quem sabe ele não volta.
E então vi as folhas amontoadas sobre o chão. Eram tantas. Ano que vem cairiam de novo. Mais ou menos desse jeito. Mas talvez aquela amendoeira nem esteja mais ali. Ou talvez eu não esteja.
Ele não ia mais voltar.
Fechei a cortina. O quarto escureceu.

Era melhor assim.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Anoitecemos

Queria encontrar a eternidade,
A moradia fincada em terra,
Raiz que se esvai de nós.
Sob os seus braços repousar
E assim permanecer -
Anoitecer.
Seus braços envolvendo o meu corpo
Que em carne, cru, é inteiro.
Seu.
A luz clara se põem do outro lado,
Distante.
No caminho nosso cheiro se confunde
Homogeniza-se dentro do fim da madrugada
Que não tarda, amanhece.
E a gente se esquece.
Volta a sonhar com os olhos abertos.

sábado, 14 de setembro de 2013

Às 18h

Pessoas passam como terremotos.
Atingem-me com seus pensamentos,
Viagens individuais,
Que se dissolvem no ar,
Misturam-se com a neblina
E o barulho dos automóveis.

Meus ouvidos estão atentos
Embora meus olhos tentem fugir,
Escapar.
Procuram o menor espaço por entre os corpos
- que se chocam.
Permanecem intactos
Embora desmoronem.

Procuro por rostos comuns,
Mas encontro fome em seus semblantes.
Vejo corpos se dissolvendo pelo asfalto seco,
Vejo nossa voz perdida dentro da multidão,
Os meus olhos desesperados
Refletidos em pupilas desconhecidas.

Encurralamo-nos.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quebram-se os vasos

Sinto como tivessem-me arrancado as pétalas. Sinto-me crua,  seca.
E tudo porquê
Num súbito impulso
Eu arranquei as suas.
As suas que tão belas são
E que ainda mais belas ficaram
Quando caíram ao chão. 
Debrucei-me sobre a minha sombra
Quando, então, não pude mais encará-la
E caí.
Caí tão fundo que não sei aonde fui parar
Sei apenas que aquelas petalas
- as que arranquei,
Doem mais em mim que as minhas próprias.
Tudo porque agora o trabalho é dobrado:
Além das minhas
- que já são tantas,
É preciso juntar as suas.
E as suas
- principalmente.

sábado, 3 de agosto de 2013

Traçados a mão

Guardaríamos um sonho bom para mais tarde – esse era o plano.


Cultivaríamos o que quiséssemos. E assim a colheita seria deliciosa.
Mas não dá pra controlar o regime das chuvas. Logo mais tudo aqui em volta estará alagado. E não restará mais nada. Nada do que somos restará ainda que como pó. O pó ficará até o momento em que a correnteza de ar atravessar os nossos corpos fazendo toda a poeria voar. O pó que restar vai ficar intrometido no meio dos moveis e embaixo dos tapetes. Fora isso, nada. E eu nunca gostei daquele tapete.
Mas por que então chorar o fim? Por que adiá-lo como se o temêssemos?

Você olhará para mim como se não me reconhecesse.
E eu farei o mesmo.
Bateremos as portas.
E um dia talvez nos esbarremos na rua e os nossos olhos nos traiam. Ou talvez não. Talvez eles fujam e a gente fingirá que não se conhece. Ou se conheceu.
Lembraremos então, um do outro. Você vai olhar pra trás, mas não vai me achar. Tudo bem, não teríamos nada pra falar. É melhor assim.