terça-feira, 30 de julho de 2013

"De sofrer e amar a gente não se desfaz.."

Quebra-cabeça, quebra-coração, quebra-corpo, quebra-tudo,
mas a gente não-quebra.
Só amadurece.
E no final até se esquece
De catar os cacos
Que ficam no chão
Ao relento.
Peças soltas
Levadas ao vento para outro canto
Um lugar qualquer que falte pedaços
Que eu possa finalmente me juntar.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Pintando com a ponta dos pés

E a gente vai assim
juntinho
dançando sobre a escuridão
enquanto nos bordamos sobre o céu
pintado de azul e rosa.
Eu
Você
Duas pequenas migalhas perdidas dentro desse azul
Escuro, denso, infinito
Assim como nós
Quando recolorimos a nossa imensidão
E afogamo-nos um no outro
Como o peixe que pula sem medo
Para dentro do oceano sem fim.

domingo, 7 de julho de 2013

Carta de adeus ao velho avô

A necessidade de uma despedida acaba pesando mais do que a própria ida. Ainda é difícil de acreditar, parece que vou chegar na casa da minha avó e encontra-lo em sua cadeira de balanço a qualquer hora. Nesse momento, maior do que o adeus, maior do que entender o que é esse abismo que se estende para além da vida e de nós, é processar como tudo isso aconteceu tão depressa e levou de nós o nosso exemplo, o nosso forte. A gente sabe que uma hora ou outra, todo mundo sai daqui, deixa esse mundo louco que comporta tantos absurdos e injustiças. Sabemos disso. Mas não da pra prever a hora de ninguém. Talvez ele já soubesse. Talvez ele tenha arrumado tudo para que fosse embora sem dor, e sem prolongar o nosso sofrimento. Tudo isso aconteceu rápido demais. Primeiro, a doença. A temerosa doença. Depois a internação, as recaídas, o quadro de delírio e o fim. Eu ainda pensava que o teria de volta até dias atrás. Parece que estava ainda dentro da minha própria bolha de proteção, ignorando a verdade e a dor. “Nada vai acontecer, ele vai ficar bem. Ele vai ficar bem.” A gente sempre se esconde da morte e sempre se surpreende quando a encara independentemente de sabermos de cor e salteado que o fim de todos nós será o mesmo. Passamos a vida inteira ignorando o abismo que paira sobre o nosso lado fingindo não ver o quanto somos frágeis. Fingindo não ver o que não conseguimos entender. Na sexta feira, chegando ao hospital, de repente, a minha ficha caiu. Eu não compreendi na hora, ainda relutava. Mas alguma coisa me fazia chorar, me fazia entender que havia chegado. E assim consegui me despedir dele. Deitado na cama, sem conseguir falar, parecia dormir, mas alguma coisa me dizia que ele ouvia tudo o que eu queria falar. Eu estava sozinha no quarto com ele, entendi que era a minha vez. Parei ao seu lado e desejei, com o menor resquício de esperança que havia ainda dentro de mim, que ele melhorasse e voltasse logo para casa. Alguns segundos depois eu pensei melhor e pedi apenas que ficasse bem. As lágrimas caiam dos meus olhos e pingavam no lençol. A minha vontade era de sacudir o seu corpo, berrar e implorar pelo meu avô que parecia não estar mais ali. O meu avô que há dois meses era saudável. Um pouco esquecido, é verdade, mas saudável. Mas o meu pedido foi atendido e ele ficou bem. Quem não ficou fomos nós, os que ficaram. Os que ainda estão presos dentro dos seus sonhos e ambições impossíveis. Até a minha avó estava com as dela. Diz agora que não quer saber mais de nada, nem de festas, nem de reuniões, de nada. Mas eu tenho certeza que alguma força vai sair de dentro dela e vai coloca-la pra cima de novo. É triste demais ver alguém perder o companheiro da vida inteira. O desespero que lhe subia a garganta e os olhos. Como se o seu coração sufocasse, implorasse por outro destino. E então ela parava, com o olhar distante, e perguntava para qualquer um que estivesse ao seu lado: "Ele foi embora mesmo?" E ela continuava com o mesmo olhar. O olhar perdido, sem rumo, revelando a confusão que havia dentro de si.

Ao meu avô, então, eu deixo uma salva de palmas, muitos agradecimentos, e, claro, uma enorme saudade. A poeira dos dias vai passar por nós até que possamos aceitar que a vida tem dessas coisas. O meu avô é a primeira pessoa que eu vejo morrer. A primeira pessoa que eu conheço e sei que não vou mais encontrar. Todos me falam o mesmo, alegando que ele está num lugar melhor agora. É cliché, mas tudo que convém a esse momento também é, e eu realmente acho que ele esteja. O meu avô que lutou a vida inteira, que saiu de uma cidadezinha do interior da Bahia para completar o ensino médio em Salvador. Formou todos os irmãos, depois casou e construiu uma família aqui no Rio. O meu avô que, através do estudo (coisa que ele sempre falou), conseguiu, talvez, mais do que supunha um dia. O meu avô que me apresentou a literatura e passou para a mim a mesma paixão. Ele comprou meus primeiros livros, me deu quase inteira a obra de Shakespeare quando lhe pedi, assistiu as minhas peças e aplaudiu na primeira fila. Como ele vai fazer falta! As coisas ainda estão confusas, tenho a impressão que estão fora do lugar. A pessoa vai embora e parece que deixa aqui, de diferentes formas, pequenas representações. A cadeira de balanço ainda me faz lembrar imediatamente. Os quadros nas paredes. A casa. O quarto ainda não consegui entrar. E nos livros eu nem penso em tocar ainda. O meu avô que infelizmente não conseguiu acompanhar tudo o que gostaria, mas que certamente ensinou o bastante para as gerações seguintes. Descanse meu avô, descanse e cuide e de força para nós aqui. Nós que tanto sentimos a sua ausência, que tanto relutamos em aceitar, mas que agradecemos o fim de todo o sofrimento. Fique em paz.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Embriaguez

- Mais uma dose! – era a terceira vez que eu pedia. Ninguém me atendia.
O copo chegava até bem perto de mim, até bem perto dos meus sentidos. Eu sentia o seu cheiro carregado pelo ar, o seu gosto queimando em minha língua, o suor escorrendo pelas beradas.
Eu estendia a mão, chegava às vezes até a sentir a temperatura suave da sua pele. Minha mão se fechava, como se a tentasse capturar, mas restava somente vento. E poeira.
O garçom então caminhava pelo resto do salão, servindo a todos. Menos a mim.
- Você já teve a sua! – ele dizia.
E daí? Eu queria mais. Queria me embriagar mais uma vez naquele gosto, naquela explosão que fazia arder todo o meu corpo, até me sufocar. Queria me perder da mesma forma que me encontrei uma vez.
Certa noite, cerca de quatro meses atrás, eu tive a minha primeira dose. Estava saindo de um porre quando me deparei com a novidade.
Primeiramente percebi que não me caberia chegar tão perto, não me sentia suficientemente poderoso para provar daquele copo. Não daquele. Até porque, o copo em que eu bebia antes era também muito valioso, mas a ele me restaram poucos goles. Dessa vez eu estava com sede acumulada, queria virar o copo inteiro, e não somente a metade.
Eu não acreditei que seria capaz, mas quando me olhei no espelho, vi o reflexo do meu corpo com o copo nas mãos.
Eu o segurava sem força, mas com vontade. E eu bebia um, dois, três, quantos goles eu quisesse. Era impossível resistir àquele gosto, àquela temperatura, àquela música que soava no fundo que nos fazia dançar e esquecer de todo o resto.
E o mundo sumiu realmente. De repente eu me vi perdido em outro universo, um lugar que até então meus olhos não conheciam, mas eu já havia visitado há tempos em noites de lua cheia.
Acordei no dia seguinte e não sabia se ainda sonhava ou se já era dia.
A noite anterior se repetia como um disco arranhado. Eu não me cansava de rir, tamanha era a felicidade que sentia por ter conhecido aquele gosto. Eu nunca imaginei que eu seria capaz de conseguir algo tão especial.
Uma semana depois eu voltei ao bar para a minha segunda dose.
Não tão magica como a primeira, mas ainda assim extremamente deliciosa, aquela dose atingiu ainda mais forte o meu ser. Lá estava eu, mais uma vez, perdido no mundo paralelo que criamos para nós dois.
Foi na semana seguinte, no entanto, que tudo mudou.
Quando eu voltei ao bar para mais uma dose, o copo já estava em uma mesa qualquer.
Eu tentei recuar, chamei o garçom, o gerente, o segurança, o dono do bar. Não adiantou.
O problema é que desde então eu não consegui beber nenhuma outra bebida, porque nada parecia me satisfazer como aquela. É difícil beber uísque vagabundo depois de provar uísque de tão alta classe. E eu não queria beber mais nada para estancar a minha sede. Queria apenas aquele copo especifico com aquela bebida.
Passando então a frequentar regularmente o mesmo bar, comecei a conhecer, ou a tentar, novos sabores, novas experiências. Todas fracassaram, e eu finalmente me convenci de que voltava somente àquele local porque esperava sair de lá embriagado como nas outras vezes em que o copo mais precioso estava em minhas mãos.
As imagens daquelas noites ficaram tatuadas em mim. Eu fechava os olhos e sentia meu corpo balançar, perder o equilíbrio, me encontrando no vazio da solidão, que agora era mais confortável porque as lembranças eram ainda presentes.
Perdi a conta de quantas vezes voltei e me deparei com ela em outras mãos. Mas ela me provocava, todas às vezes, como se quisesse mostrar que fazia questão do meu retorno. E eu voltava, viciado e atormentado pelo o que causava em mim.
O tempo foi passando e eu fui matando a mim mesmo com a ressaca constante que me atormentava por tanto esperar. Eram frustrações todas às vezes, e quando eu ameaçava desistir, o copo aparecia na minha frente como um delírio. Mas não era. Eu a tocava, ela sorria, reascendia em mim a mesma chama. E desaparecia.
Estava a beira de enlouquecer quando me proibi de retornar ao local.
Meses se passaram e eu fui aprendendo a resistir ao mesmo tempo em que não provocava a minha sede, evitando passar perto, mesmo do outro lado da rua era perigoso. Só que, certa vez, sem nenhuma pretensão, minhas pernas me guiaram até lá.
O bar não havia mudado quase nada. E nem ela.
Continuava irresistível, pousando sozinha na beira do balcão.
Ela me viu chegar e pulou de alegria. Correu até mim e não precisou chegar perto demais para que o seu cheiro me embriagasse mais uma vez.

E lá estava eu, mais uma vez. Entregue à delicia e ao delírio de te pertencer. Embriagado.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Precipitações

Eu queria controlar o mundo
o meu, que fossse,
e já seria muito.
Queria controlar o que suga o meu corpo
o que absorve a minha pele e alma,
o que fica.
Eu nunca havia me dado conta
de quantas coisas cabem aqui.
Agora,
agora que coloco tudo para fora,
dói mais por nunca ter entendido a extensa 
quantidade de excessos que colecionava.
Não servem para nada.
Não sirvo para nada.
O meus excessos me transbordam
e escorrem por lágrimas.
Quando eu penso que tudo se foi,
a chuva se condensa e,
eventualmente,
precipita.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Amarelas


Entrei pela porta da frente naquele dia.
Caminhei até a cozinha e me deparei com um pequeno vaso de flores em cima da mesinha. Flores amarelas.
"Não são para mim", pensei.
Saí da cozinha para deixar bolsa, sapato, chave e livro em algum canto do quarto. Voltei e lá estavam elas: amarelas. Flores amarelas.
Resolvi ligar.
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Ninguém atendeu.
Elas me encaravam como pequenos girassóis. Mas não eram. Se fossem girassóis, faria sentido. Girassóis são sempre amarelos. Exceto quando não são girassóis.
Aquelas ali eram miúdas. Bonitas, é verdade, mas pequenininhas. A-ma-re-li-nhas.
Eram tantas que pareciam se debruçar uma sobre a outra. Lutavam por espaço e atenção dentro daquele vasinho de plástico preto.
Enchi minha caneca com o café que estava na garrafa desde cedo.
Frio.
Abri a geladeira para pegar o açúcar.
Depois abri novamente para guardá-lo.
Abri ainda uma terceira vez, mas não peguei nada.
Virei meu corpo e encarei-as novamente.
Cheguei a pegar o vaso com a ideia de colocá-lo na varanda. Talvez precisassem de ar. E sol.
O vaso caiu então, e se distribuiu pelo chão, fazendo a terra e aquelas coisinhas amarelas se espalharem pelo mármore branco.
Quando voltei com o pano, notei que apenas algumas tinham caído, e estavam estranhamente distribuídas sobre aquela terra escura, quase preta.
"Bonito", pensei.
Coloquei o vaso no mesmo lugar onde encontrei. Elas pareciam menos espremidas agora. Pareciam maiores. Mas não eram. E continuavam amarelas. Eu não conseguia entender.
Talvez ele as estivesse comprado para filha de alguém. Ou outra mulher. Ou talvez tenha simplesmente errado a cor por ter comprado com pressa.
Ouvi a porte bater.
Abri a geladeira.
- Oi, amor.
- Oi.
Ele deixou as chaves em cima da mesa da cozinha. Sempre fazia isso.
- Viu as flores que eu comprei pra você?
- Pra mim?
- Ué, claro - ele mastigava uma maça enquanto falava.
Virei de costas e encarei-as de novo. E lá estavam: amarelinhas de um jeito irritantemente delicado.
- Por que amarelas?
Ele parou um instante e as observou.
- Não sei.
Ele saiu da cozinha sem dizer mais nada.
Até hoje eu não entendo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Djavanizando

O amor que cresce em nós
circula como água
que desce com a chuva.
Esquenta.
Volta para o céu
que escurece
e carrega
(novamente)
as nuvens
desagua
em mim
e eu
oceano.
Oceano-me
dentro do seu corpo
imenso
e afogo
-me
por prazer
e devoção
à você.