quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Pão-Com-Manteiga


Sinto falta do barulho que ele fazia para cortar as cebolas. O excesso de manteiga que passava no pão. As doses exatas de açúcar que colocava no meu café.
Voltávamos pra cama e espalhávamos pelos lençóis o excesso de amor que talvez não coubesse em nenhum outro lugar. O café esfriava.
Sinto falta de ver a sombra do seu pé se aproximando por debaixo da porta. Os seus sapatos. A maneira como os organizava. E desorganizava suas camisas. A escova de dente que dividíamos às vezes. As colheres. Os garfos. Não. Os garfos não. Os garfos eram terríveis. Você tentava quebra-los sempre que comia com eles. Os dentes batiam com força no metal e faziam um barulho alto demais. Eu me levanta da mesa, todas às vezes. Você vinha atrás de mim. Vinha com o restante de comida na boca. E o som se repetia à medida que tentava falar. Brigávamos.
As portas se batiam.
Você dormia no sofá.
Eu dormia na metade do colchão.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Correnteza


Meus olhos não conseguem se soltar.
Aprisionaram-se a você e a todo esse castelo que construí para nós. A tudo que não ocorreu e que existiu apenas nas noites estreladas em que dançávamos no céu.
Nós dois.
Sobre o negro céu que se bordava sob a forma de estrelas coloridas.
As imagens se formam e se reformam como nuvens na minha mente. Apostando corrida pelo infinito solar que ainda cabe dentro de mim. Parece que nunca saíram daqui. Talvez não tenham, realmente.
Talvez a minha sina seja escrever sobre você. Dedicar-lhe a certeza de caber inteiramente naquilo que eu julgo ser o meu mais precioso dom.
Meus dedos se melam com o lápis e o papel e as folhas e o excesso de linhas que se formam ao meu redor.
E escorregam.
Mas eu insisto. Eu preciso insistir.
Você me sufoca.
Me sufoca com doses relativamente leves da sua existência.
Afogo-me no meio de tudo isso. E acho que gosto.
Gosto muito.
Quanto mais água eu engulo, mais pesado fica o meu corpo. Que afunda.
Afunda no abismo da imensidão.
Infinitamente.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Labirintos


Dizeres tentam transbordar,
Escorrer de mim enquanto me revelam
- ou revelariam,
Denunciariam o meu coração
A minha estupidez.
Mordo a língua.
Engulo-o.
Engulo-nos.
Chego em casa e preciso colocá-lo
Para fora
Daqui.
Vomito tudo.
E depois te encontro.

Dizeres tentam transbordar
De mim.

domingo, 9 de dezembro de 2012

5 minutos


A sua respiração é forte.
Vejo seu peito estufar lentamente enquanto você dorme ao meu lado como uma criança, completamente entregue ao próprio sono. Fico pensando quanto tempo ainda vai permanecer assim.
Sinto medo do que vou encontrar pelo meu caminho depois que passar essa sensação. Talvez demore ainda alguns minutos.
Pensava que seria capaz de adiar.
Pensava que seria capaz de tudo, mas eu tenho vontade de me render a qualquer coisa agora. Observo sua expressão, impenetrável, e fico tentando imaginar que parte do mundo você está descobrindo nesse instante. É como se o mundo inteiro pudesse caber aí dentro. Ou aqui fora.  
Os cinco minutos passam depressa demais.
Queria congelar esse momento.
Esse momento de neblina escura, onde eu quase não vejo nada e quase não sinto a necessidade de ver. É o momento em que eu acho que ainda não estou entregue à você.
Mas tudo bem.
Ainda tenho cinco minutos.
Talvez eu consiga mudar alguma coisa.
Talvez o tempo se arraste e demore a passar.
Talvez.
Eu ainda tenho tempo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Colapso


Os sonhos contigo não cabem aqui:
Explodem.
E eu tenho vontade de.

Explodo-me
Afogo-me
Lanço-me no vão,
No escuro,
No inseguro,
No destino sem volta
Do seu olhar.

Despedaço-me
Inteira.
E assim permaneceria
Para que pudesse preenche-lo
Inundar todo o seu corpo
Todo o espaço que ainda permanece
Que ainda nos separa
Maltrata
Nos delimita.

Derreto-me
Como um eterno lança chamas.
Escorro por seus dedos
Braços abraços
Beijos infinitos
E as chamas escorrem por nós
E nos ligam intimamente
Como um elo
Um selo
Imutável
de amor.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Incêndios de Uma Noite Qualquer


Incendeio-lhe
Incendeia-me
Incendeia-nos
Incendeia!
Faz arder
O fogo
O calor
A dor
O brilho
O intenso renascer
Que faz brotar de mim
Que faz brotar de ti
Que faz das cinzas o nosso crescer
Que faz de nós
O nosso incendiar
Que fez de nós
O anoitecer.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Excessos


Pânico-explosões-luzes-refletindo-de-nós.
Excessos.
Evaporam de dentro de mim
Para fora de algo
Que eu julgava me preencher.
Meus olhos reviram
Meu corpo suspira
Minha alma transborda
Em pequenas porcões
Aos montes
Aos pontos finais
Aos infinitos que nos sufocam
Que acumulam em nós.
E extravasa.
Paz.
Pequenas doses de excessos
De loucura
De prazer.