domingo, 26 de agosto de 2012

Abismos


Tanta coisa pra dizer
Tanta coisa sangrando
Para evaporar de mim.
Sai de mim!
Ou
Não.
Talvez seja melhor
Fique um pouco mais
Eu não quero que
Vá!
Saia.
Fique.
Fique comigo.
E mesmo assim
Comigo
Sozinha
Eu continuo.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Boneco


Queria me encantar por um olhar.
Outro.
Que nao fosse o meu
Que insisto em confundir 
Com aquilo que bordei de mim
Em ti.

sábado, 11 de agosto de 2012

Um Telefonema


-Alô? Oi, sou eu, tá ocupada? Tô te ligando porque queria te falar umas coisas, várias, na verdade, mas isso pode levar algum tempo, então caso você esteja ocupada é melhor deixar pra lá. Sim, claro que é importante, eu quero falar logo tudo isso, mas é que, na realidade, eu não sei bem por onde começar. É que eu tenho tantas razões pra ter dado esse telefone, e sim, eu concordo, talvez essa conversa devesse ser ao vivo, mas o telefone parecia ser tão mais acessível e, acho que eu desisti de falar todas essas coisas obvias que eu poderia te dizer simplesmente porque você merecia saber. Eu poderia estar ligando pra te dizer o tamanho do buraco que se abriu aqui desde que você foi embora e de como esse buraco cresce a cada segundo que eu fico sem ouvir a sua voz ou sentir o seu cheiro. É uma questão de costume sabe? É como se faltasse uma parte do meu dia, como o dia a noite, sei lá. Eu poderia estar ligando para isso, mas não estou. Eu poderia também estar querendo lhe falar o quanto eu estou disposto a tentar mais uma vez, o quanto dessa vez poderia ser diferente porque eu percebi que devo abrir mão de certas coisas, várias, eu sei. Não quero brigar agora, nem discutir isso mais uma vez. Sei, sei, pelo telefone é ainda pior. Então, é por isso que estou te dizendo que não liguei pra isso, claro que não. Sim, eu tô concordando com você, e sei que isso é esquisito, mas escuta, deixa eu falar. Eu não to tão diferente assim, e eu não te liguei pra te mostrar o quanto eu mudei, eu não acho que eu tenha mudado, mas se você aprova essa mudança, que bom então. Eu te liguei, na realidade, pra perguntar, sim, claro, só pare de me interromper um minuto, eu já vou deixar você sair pra pegar a sua praia, eu sei que não se pode perder um dia de sol nessa cidade, sei disso. Não, eu também não liguei pra perguntar como estão as coisas ai. Não é que não me interesse, é só que parece não fazer sentido eu não estar aí, junto com você. Sei que já conversamos sobre isso, eu também não te liguei pra te dizer que tenho passado a maior parte dos meus dias e horas imaginando o que você tem feito ou com quem você tem saído e... Não tem saído com ninguém? Tudo bem, não precisa me contar, a gente combinou, certo? Eu sei, eu já estou rompendo o acordo com esse telefonema, mas eu não te liguei pra te pedir pra voltar ou pra me perdoar por todas as merdas que eu fiz, mas é que eu finalmente percebi que eu realmente fiz um bando de merda, mesmo a gente tendo combinado que não tocaríamos nesse assunto no período em que você estivesse aí, mas eu não liguei pra isso, juro que não...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Becos


Nao vejo o seu rosto,
Nao sinto seu cheiro,
Mas ainda assim corro.
Persigo seu corpo.
Persigo seu mistério pelo motivo de somente sê-lo.

Pela razão de querer preenche-lo,
Por algum encanto que me lançou,
Despenco-me no ápice de mim mesma.
Loucura. Loucura.

Paro. Penso.
Esqueço.
Volto a correr.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sozinho


          Eram quase nove horas de uma manha ensolarada de domingo quando me dei conta de que já era dia. O sol tentava penetrar meus olhos, cegos com a claridade. Meus olhos se contraíam. Desisti de tentar mantê-los abertos.
            Não conseguia voltar a dormir. A claridade ainda me doía mesmo quando eu me recusava a ver. Virei de lado, contra a janela, e vi a sombra das coisas que pertenciam ao meu quarto. As coisas que eram minhas, somente minhas. Vi meu corpo deitado sobre a cama e mexi lentamente meu braço para cima para vê-lo como sombra também.
            Levantei-me e continuei a encarar minha imagem na parede. Virei-me novamente para a janela, onde o sol brilhava ainda mais que antes e era capaz de queimar minha pele lentamente.
            O telefone começou a tocar no outro cômodo e me acordou dos pensamentos melancólicos. Meu olhar seguiu a direção do som, mas quando meu corpo ameaçou se levantar, fui vencido por um cansaço mental. Então permaneci sentado à beira da cama, mirando o chão e as sombras das coisas ao meu redor.
            Fiquei assim, sentado, imóvel, durante algum tempo. Não sei bem quanto. Dessa vez, voltei à realidade quando meu estômago reclamou por comida.
            Deixei finalmente o quarto e fui em direção a cozinha. Arrastando meus pés pela madeira escura. Abri a geladeira e fiquei vidrado na sua luz interna. Não me deixava cego, nem fazia meus olhos doerem. Era diferente. Fechei a geladeira, esquecendo-me porquê tinha aberto. A fome acalmara.
            Passei o dia assim. Afogado em pensamentos ilógicos. Absorto em sua problemática que, de alguma forma, tinha a ver com a minha vida. A realidade fora dali parecia um passado distante. Nada do que vinha de fora me atingia. Só aquela luz. Aquela maldita luz.
O telefone voltou a tocar. Tocava e parava, num intervalo quase cronometrado. Acho que ouvi a campainha também, nesse meio tempo. Mas era um som mais distante. Até que, por um longo momento, tudo ficou silencioso. A rua, o telefone, a minha cabeça.  Comecei a me sentir sozinho. Pequeno demais para o tamanho do mundo que me cercava. Voltei pro quarto. Tudo escuro novamente. Que bom. Voltou ao normal.
            Deitei em minha cama, imutável. Estava da mesma forma que deixei quando acordei. Fitei o teto por um instante. Mexi meus braços e pernas procurando pelas sombras... Não encontrei nada. Deitei de lado e olhei a parede. Repeti os movimentos. Nada.
Comecei a me perguntar se aquela luz era realmente importante. Adormeci.
Abri os olhos algumas vezes. O telefone tocava. As janelas batiam. As portas também. Cochilava. E tudo voltava a se agitar. Dentro e fora daqui. Voltava a dormir. Sonhos escuros, borrados. Misturados àquilo que me fazia pensar ser a realidade.
O despertador não tocou. Olhei para o relógio, tentando entender que horas eram. Mas os ponteiros também não se mexiam. Novamente o sol me invadiu a minha retina. Encarei-o, como encararia um inimigo num duelo mortal. Sentia meus olhos arderem. Insisti. Mas então fechei-os novamente, me rendi sem me dar conta. Passei a mão pelos cabelos procurando arrancá-los, mas não tive sucesso. Não eram eles que faziam minha cabeça pesar.
            Corri para a sala fugindo de tudo que estava atrás de mim. Olhei para os lados, procurando algum olhos que estavam atrás de mim. Em algum lugar, escondidos. Mas não encontrei. Eu estava sozinho. Como sempre.
            O telefone voltou a tocar. Estava bem diante de mim. Engoli um pouco da saliva presa à garganta e olhei novamente ao meu redor. Dessa vez procurando uma desculpa para fugir daquela chamada.
            Resolvi encará-lo. Peguei o telefone e pus em meu ouvido, sem dizer uma palavra.
            - Alô? Alô, Sérgio? Meu amor, você tá vivo?
            - Eu tô legal.
            - Porra! Aonde você se meteu?  O que aconteceu com você?
            - Eu tô bem, a gente se fala depois.
            Coloquei o telefone na linha antes de arremessá-lo ao chão. Que raiva! E por que era esse o sentimento que me possuía? Por que não era de alegria que vibrava o meu peito por saber que eu não estava só como imaginava? Por que nada daquilo que me pertencia parecia não ter mais sentido?
            As perguntas foram sendo jogadas pela minha mente como uma entrevista de emprego. Como uma sentença de morte. Tudo a minha volta começou a se confundir. Flutuar. Girando de forma gradual. Precisei de ajuda pra me manter em pé. Procurei por algum lugar seguro o bastante para me apoiar. Achei a cadeira, que caiu junto comigo quando apoiei o meu peso. Meu corpo caiu como uma pedra sobre o chão frio.
            Fiquei deitado ali por algum tempo, e apesar de acordado, não conseguia me mexer. Não sabia se estava consciente. Mas então, o que é estar consciente? Comecei a me perguntar há quanto tempo eu não olhava pras coisas com atenção. Não me lembrava como era o meu rosto. Por quanto tampo que eu andava por aí com os olhos vendados? Manchados de branco. E tons de cinza.
            E nesse momento, em que o meu corpo já estava quase tão gelado quanto o chão abaixo dele, percebi que o sol ainda brilhava lá fora. Levantei-me com dificuldade e caminhei até a janela. Debrucei-me nela e fitei aquela luz forte mais uma vez.
            Era fim de tarde e, teoricamente, aquela luz não deveria ser tão forte como no começo do dia, mas me doía da mesma maneira. Dessa vez, meus olhos não se fecharam. Não deixei. Eles encaram o sol até onde puderam. Pude sentir algumas lágrimas descendo pelo meu rosto. Me vi correndo no quintal da casa da minha tia quando era pequeno. Roubando bonecas da minha irmã só pelo prazer de dizer que eram minhas. Lembrei do dia em que saí de casa sem me preocupar com o que deixara ali. Sem olhar pra trás. Imaginando um futuro utópico, que nunca existiu. Percebi que nunca havia me importado realmente para o caminho que estava seguindo. Percorria-o porque tinha de seguir. Eu estava morto. E a culpa era minha. Minha em tentar fingir ter um vida completa que nunca sequer teve significado. Eu não tinha nada. Nada. Mesmo depois de passar uma vida acreditando possuir tudo.
         Subi no parapeito. Sentia o sol agora inteiro, em todas as partes de mim. Decidi fechar os olhos. O calor era até reconfortante, como um abraço. Mas doía demais em meus olhos. Era claro demais, não conseguia ver nada. Mesmo de olhos fechados.
         Mas eu não queria me esconder aquele momento. Não aquele. Seria crueldade demais não poder ver meu último suspiro.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Distante


Vejo correr a lagoa diante dos meus olhos e sentidos.
Saudade.
Reflexo do meu choro no vidro.
Confusão.
Pedaços de mim que deixei para trás,
Para longe de algo que me faz ser eu mesma.
Vazio.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Intruso


Parece que a minha mente se acostumou com você.

O seu rosto é comum nas janelas do meu quarto, nos reflexos do espelho, nas intimidades do meu corpo.

Já não o sinto mais entrar.

Abre a porta, caminha por todos os cômodos pisando forte no chão de madeira. Abre as gavetas, os armários. Desarruma a cama, suja os lençóis.

Me acorda.
Me machuca.
E vai embora.