segunda-feira, 13 de maio de 2013

Precipitações

Eu queria controlar o mundo
o meu, que fossse,
e já seria muito.
Queria controlar o que suga o meu corpo
o que absorve a minha pele e alma,
o que fica.
Eu nunca havia me dado conta
de quantas coisas cabem aqui.
Agora,
agora que coloco tudo para fora,
dói mais por nunca ter entendido a extensa 
quantidade de excessos que colecionava.
Não servem para nada.
Não sirvo para nada.
O meus excessos me transbordam
e escorrem por lágrimas.
Quando eu penso que tudo se foi,
a chuva se condensa e,
eventualmente,
precipita.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Amarelas


Entrei pela porta da frente naquele dia.
Caminhei até a cozinha e me deparei com um pequeno vaso de flores em cima da mesinha. Flores amarelas.
"Não são para mim", pensei.
Saí da cozinha para deixar bolsa, sapato, chave e livro em algum canto do quarto. Voltei e lá estavam elas: amarelas. Flores amarelas.
Resolvi ligar.
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Ninguém atendeu.
Elas me encaravam como pequenos girassóis. Mas não eram. Se fossem girassóis, faria sentido. Girassóis são sempre amarelos. Exceto quando não são girassóis.
Aquelas ali eram miúdas. Bonitas, é verdade, mas pequenininhas. A-ma-re-li-nhas.
Eram tantas que pareciam se debruçar uma sobre a outra. Lutavam por espaço e atenção dentro daquele vasinho de plástico preto.
Enchi minha caneca com o café que estava na garrafa desde cedo.
Frio.
Abri a geladeira para pegar o açúcar.
Depois abri novamente para guardá-lo.
Abri ainda uma terceira vez, mas não peguei nada.
Virei meu corpo e encarei-as novamente.
Cheguei a pegar o vaso com a ideia de colocá-lo na varanda. Talvez precisassem de ar. E sol.
O vaso caiu então, e se distribuiu pelo chão, fazendo a terra e aquelas coisinhas amarelas se espalharem pelo mármore branco.
Quando voltei com o pano, notei que apenas algumas tinham caído, e estavam estranhamente distribuídas sobre aquela terra escura, quase preta.
"Bonito", pensei.
Coloquei o vaso no mesmo lugar onde encontrei. Elas pareciam menos espremidas agora. Pareciam maiores. Mas não eram. E continuavam amarelas. Eu não conseguia entender.
Talvez ele as estivesse comprado para filha de alguém. Ou outra mulher. Ou talvez tenha simplesmente errado a cor por ter comprado com pressa.
Ouvi a porte bater.
Abri a geladeira.
- Oi, amor.
- Oi.
Ele deixou as chaves em cima da mesa da cozinha. Sempre fazia isso.
- Viu as flores que eu comprei pra você?
- Pra mim?
- Ué, claro - ele mastigava uma maça enquanto falava.
Virei de costas e encarei-as de novo. E lá estavam: amarelinhas de um jeito irritantemente delicado.
- Por que amarelas?
Ele parou um instante e as observou.
- Não sei.
Ele saiu da cozinha sem dizer mais nada.
Até hoje eu não entendo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Djavanizando

O amor que cresce em nós
circula como água
que desce com a chuva.
Esquenta.
Volta para o céu
que escurece
e carrega
(novamente)
as nuvens
desagua
em mim
e eu
oceano.
Oceano-me
dentro do seu corpo
imenso
e afogo
-me
por prazer
e devoção
à você.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Infinitizar-Nós


Adoro infinitos.

Retas que seguem lado a lado 
Ultrapassam o papel que lhes é delimitado
Ultrapassam o limite que lhes fora concedido
E seguem juntas rumo ao desconhecido.

Adoro a ideia de estar em órbita
Afogada e imersa nesse grande universo
Onde cabem estrelas
Infinitas, também.

Adoro a ideia de viver de amor com você.
E adoro como essa idéia parece infinita hoje.

Infinitizo-nos
Para perpetuar o que somos
O que queremos ser
O que queremos fazer
Dentro do nosso imenso mar
Infinito
De amor.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Um Instante


Amor,
escuta,
eu preciso falar agora.
É, eu sei.
É só escutar
um instante.
Quanto custa
um instante?
Nós?
Talvez seja um preço alto a pagar.
Que seja então
nós.
Pagaria esse preço.
Não.
Não tenho dinheiro.
Mas gostaria.
Arriscaria.
Você
não?
Sei lá.
Acho que estarmos juntos
já é caro demais.
E por que então
o risco
não valeria?

quarta-feira, 13 de março de 2013

Infinito Particular


Ele chega de mansinho na calada da noite
Deita ao meu lado
Encosta a cabeça em meu peito
E adormece.
Repousa em mim tamanho peso
Que sufoca o meu corpo
Me tira o sono
Me tira 
Tudo.
As luzes se apagam
E tudo se perde no ar:
Eu me perco de mim
De ti,
E temo em pensar que você também se perca
No meio dessa imensidão
Que me inunda.
E assim espero raiar o dia
- um novo dia,
Em que eu possa matar todo esse pesar
Saciando-me com doses carregadas
De você.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Pão-Com-Manteiga


Sinto falta do barulho que ele fazia para cortar as cebolas. O excesso de manteiga que passava no pão. As doses exatas de açúcar que colocava no meu café.
Voltávamos pra cama e espalhávamos pelos lençóis o excesso de amor que talvez não coubesse em nenhum outro lugar. O café esfriava.
Sinto falta de ver a sombra do seu pé se aproximando por debaixo da porta. Os seus sapatos. A maneira como os organizava. E desorganizava suas camisas. A escova de dente que dividíamos às vezes. As colheres. Os garfos. Não. Os garfos não. Os garfos eram terríveis. Você tentava quebra-los sempre que comia com eles. Os dentes batiam com força no metal e faziam um barulho alto demais. Eu me levanta da mesa, todas às vezes. Você vinha atrás de mim. Vinha com o restante de comida na boca. E o som se repetia à medida que tentava falar. Brigávamos.
As portas se batiam.
Você dormia no sofá.
Eu dormia na metade do colchão.